sábado, 18 de abril de 2009

O petardo assombrou Capitu

O petardo assombrou Capitu. Cabisbaixa e ligeira, procurou abrigo embaixo do velho sofá da sala, que dividiu com nuvens de teias de aranha e um pé de sandálias havaianas, perdido no Natal.
Era dia de Ano Novo. Noite dos estranhos estampidos que comemoravam o ar concedido a cada vida. Cadela, Capitu não sabia. Farejou estranhezas. Sobre os muros, cheiros de assados domingos voando desde os vizinhos próximos. Faros para se sentir durante o dia, não à noite, teria intuído a cachorra, carente de racionalidade.
Saiu com jovialidade em baixa, na ponta do focinho, cheirando o chão irrequieto para achar, na casa, Olegário, seu dono. Atiçou as orelhas com o som dos soluços, na varanda dos fundos. Acudiu veloz um infortúnio iminente.
Vê-la chegar de rabo em leque, latindo contínuos chamados por socorro, fez o homem desengatilhar a arma, colocá-la sobre a mesinha, e choramingar palavras redimidas: “vem cá, minha neguinha”.

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