domingo, 13 de setembro de 2009

Para dizer o que

Para dizer o que se ouve é preciso ver o que se diz. Jurandir aplicava o trocadilho sempre que Jandira lhe contava coisas escabrosas da sogra. A megera, dizia ela, fazia preces sem palavras, para ninguém saber a qual santo rezava. Pior eram os gestos. Recebia o filho como um traidor, e a mulher dele, no caso, a própria Jandira, com dissimulados sorrisos e sins, como se sim. Sempre.
Jurandir, no princípio da parcimônia excessiva, falava que a vida não era assim. Jandira haveria de pensar como mais antigamente e menos ultimamente. “Sogra é uma mãe que ganhamos”, insistia com a irmã, a quem culpava pelas inúmeras sessões de terapia, que a teriam transformado numa egocêntrica contumaz. Depois, não gostava de conhecer ninguém por reputação. Tantas bilionésimas vezes atormentou a irmã, que Jandira, num repente de “tá bom”, decidiu apresentar-lhe a sogra. A velha o mediu dos óculos aos tênis, sorriu que sim, mas gorou-lhe a esperança: “o senhor não se parece nada com Jandira. Vai ver que foi criado longe?”...

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