terça-feira, 13 de setembro de 2011

O vento faria

O vento faria volatear o pó que se instalou sobre os livros. Limpá-los, para Amadeu, era agredi-los com o excesso de zelo. Rato dos sebos, entendia a volúpia das traças, o amarelado dos anos e as dobras impossíveis de serem contrariadas. Tinha um quê pelo arcaico. Uma afeição ímpar pelos pares dos volumes enciclopédicos grudados pelo imenso tempo de desuso. Vivo ardor pelo bolor. Aquela essência mágica de naftalina vencida amalgamada à decrepitude insalubre dos fungos capazes de causar-lhe espirros e corizas múltiplas. Sagitta in caelum excussa in ferientem recidet (Quem cospe para o céu, no rosto lhe cai), leu sem entender uma palavra num velho livro em latim, comprado por uma ninharia. E tudo “muito prodigioso”. Menos o conteúdo... mas o cheiro.


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