
Dedos anônimos lhe mexeram a nuca. Um triste odor de árvores se levantou do jardim, mesclado com o agridoce cheiro de urina furtiva de criança. E ali não era cemintério nem nada que pudesse remeter a mistérios. O piado suave de pardais adormecidos mostrava a vida com seus baldes de sinais. Tinha a solidão também, mas acha que Marília iria se importar com ela? Só aqueles toques, e dedos, e nuca é que não se encaixavam bem, porque parada ali não via vultos. Julgou então que seria simples impressão ou a mão de Deus ou ciscos do ar ou um vento tão pontual que chegava a materializar-se. Marília nem sabia de fato se ali, parada, chegava a existir. Acho que não era ela, não era com ela, nem poderia acontecer aquilo. Quando acordou só estranhou a mecha aberta na nuca: coisas da imaginação ou do travesseiro com penas de ganso.
(Mongaguá-SP)