quinta-feira, 30 de abril de 2009

Repleto do uísque

Repleto do uísque adulterado pôs na cabeça que amara Clara e, no estomago, dois comprimidos de engov e uma latinha de água tônica. Suas palavras foram contrárias as de todos na festa, e as palavras de todos contra as suas. Era o que se lembrava, além do olhar cego para o ambiente não muito visível em suas lembranças tortas.
Como se fosse deus o pré-fixador de seu dia de agonia, rezou pais-nossos, para ajudar a memória. Clara, Clara, claro que esteve lá. Mas e depois? Lentamente teria se afastado? Saltitante fora aos tchaus com dois beijinhos ou saíram juntos? Qual a extensão e forma do escândalo?
O toque agudo da campainha dói no seu insolente torpor. Abatido abre a porta. É Clara. Traz uma garrafinha de gatorade e um sal de fruta eno, ambos sabor laranja. Cítrica e sorrindo, dá-lhe um beijinho nos lábios: você não me ligou?

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Farto de prodígios

Farto de prodígios, mais de uma vez deixou claro que não queria reza em seu velório. Sirvam cachaça amarela, salsicha no vinagre e, se não for dar trabalho, até umas sardinhas fritas, empanadas, como aquelas do boteco do Seo Antônio.
Fazia do cardápio da morte sua ração de vida. Megalomaníaco, vangloriava-se de já ter bebido mais de cem alqueires de cana e comido um cardume, frito pelo português ou aberto nas latas de gomes da costa ou “da coqueiro”.
O tempo, senhor dos estômagos, logo tratou de estragá-lo. Na emergência do postinho de saúde da vila, entre cólicas lancinantes, desmaios pungentes e zonzeira aflitiva, balbuciou à Gertrudes, sua parceira sexagenária: “na dúvida, Gegê, junte àquela lista de coisas do cemitério uma ave-maria”...

terça-feira, 28 de abril de 2009

Assombrado com o montinho

Assombrado com o montinho de cinzas que sobra de uma vida, soprou o pai no riacho. Desejo de morto não se discute. E fora das cinzas, quando falas, que surgiram os anseios de virarem iscas para os piaus e lambaris, que sempre nadaram naquele local.
Enternecido, ele sentiu as imagens de sua fantasia começaram a se perseguir, umas às outras. A água se movia em círculos. Pontos centrais que se propagam em minúsculas ondas. Muitos. Muitas. Sinal de peixe!
Já que estava ali mesmo, resolveu seguir a sina. Filho de peixe, peixinho é. Sacou a varinha fina de bambu barato, chumbada levíssima, linha delgada, anzol mínimo. E lançou à sorte entre os círculos aquáticos. Puxa, repuxa: a fisgada!
Vai à frigideira o peixinho e os seus olhos. Quer mais do pai, além do DNA.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Com a sorte de subúrbio

Com a sorte de subúrbio, comprou a motocicleta. Usada, mas inteirinha. Pega não pega, pegou gosto pelo vento. Brisa que lhe tocava a face, quando a moto pegava, após formosa guerra matinal. Colocou uma caixa para o capacete e Daiana na garupa. Imprimiu ritmos alterados ao velho motor: enfermiço nas subidas, prodigioso ladeira abaixo. Subia lento, descia rápido.
Daiana se atracou à barriga gorda. Bulinou partes fáceis de Edvelson. Beijou-lhe a nuca, no vão entre o capacete a gola da camisa. Empinou-se à vista dos olhares vãos, dos espectadores de calçada, mirados nos seus glúteos flácidos, sobre o fulgor do aço. Calça e cérebro funk. Queria mostrar o anjo. A divindade azul-caneta tatuada na base de sua coluna vertebral.
Edvelson, sangue quente, ardia de ódio, e desviava dos grupos de apreciadores angelicais. Acelerou mais, na descida.
Não lembro se naquela noite nos suicidamos, disse ao anjo-de-guarda que lhe pareceu nebuloso, trajando um uniforme do Corpo de Bombeiros.

domingo, 26 de abril de 2009

Meu comércio com o Sol

Meu comércio com o Sol não é de hoje. Comprei sua luz quando nasci, às dez e quarenta da manhã. Daquela hora em diante passei a poupá-la, para usá-la inclemente, dias a fio. Às vezes permutava os juros com a Lua. Minguante troca, que sempre me fortalecia o intuito a novas aplicações nos alvoreceres.
Na inocência clara havia as aplicações, pós-almoços, das horas sonolentas sob os brancos e amarelos que vinham do céu, Sol abaixo. Adolescência luzidia trazia as primeiras tonalidades cinzas, fraquinhas, quase alvas, dos crepúsculos vespertinos.
Então veio a maturidade, adulta feito o preto, tentando o embargo com as negociações solares. Mas o que é do homem a noite não come. Uma iluminação repentina subiu estômago acima, e veio dar nos olhos. Pus na mesa de barganhas as noites longas do inverno, e trago comigo esperanças luzidias, cintilantes, que recebi em troca. Hoje tenho ações ao portador da primavera!