sexta-feira, 5 de junho de 2009

Odiava a imaginação

Odiava a imaginação, exatamente porque não tinha nenhuma. Ai do funcionário, colega ou cidadão do lugarejo que apresentasse (ou pior, que escrevesse) uma boa ideia qualquer. Sua intimidade com a mediocridade logo acendia o sinal de alerta. Tratava de enquadrar a coisa como ideia perigosa, ímpia, atrevida, o pobre de talento.
Então elogiava outrem, sempre na presença daquele que pretendia rebaixar, rival do elogiado. Até o dia em que o silencioso e criativo Felipe lhe devolveu a punição: “ninguém elogia com boas intenções”, disse, citando Miguel de Unamuno, que obviamente Fernando, o sem-talento, não lera. Foi a conta. Este último, em síncope nervosa, soltou-lhe impropérios de nanos calões. E Felipe agradeceu-lhe: isso, sim, é elogio!

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Inquieta como abelhas

Inquieta como abelhas, Fabiana só tinha sentimentos profundos por pessoas ou situações que lhe trouxessem vantagens. Diante delas sua alma bradava tal gata no cio. E foi numa dessas importantes reuniões de condomínio que conheceu Orestes, de camisa lacoste e conversa mansa.
Ele logo reconheceu as muitas superficialidades da moça esbelta, que se aproximara falando do tempo chuvoso. Espirituoso, ofereceu-lhe carona no elevador e riu. Ela aceitou, e riu também. Olharam-se pelos quatro espelhos, ali fechados. O caráter provisório conjugava-lhes os verbos ter e estar. Tinham-no e estavam em. Ela alisou o jacaré com o indicador, displicente. “Você tem bom gosto”, disse a ele, sedutora. Uma forma sutil de se auto-elogiar...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Separados na fúria

Separados na fúria, Fúlvio jurava de pés juntos que, de Simone, não queria sequer sentir o perfume. O intrometido almíscar mais de uma vez impingiu surpresas nostálgicas às narinas do rapaz, acostumado a habitar o mundo da lua, desde o rompimento com a moça. Virava a cabeça, vira-e-mexe vazia, ao mais ínfimo aroma daquela fragrância rasteira, cujas ordinárias gotas misturara inúmeras vezes ao seu suor apaixonado.
Adotaria um cheiro cítrico floral, como conduta radical, à volátil lembrança de Simone. Seu cérebro das emoções petrificaria os neurônios, até que o tempo lhe trouxesse o olfato cético às cavidades nasais sem estímulo.
Passaram-se os anos e aromas. Armanis, bvlgaris, ruas, casas ácidas e doces cabanas, quando enfim Fúlvio falou: “esse mundo não cheira nem fede”...

terça-feira, 2 de junho de 2009

A angelical devassidão

A angelical devassidão de Mara Magali sofria um branco naquela hora. Como todas as noivas, demonstrava a pureza do pudor e a perplexidade característica da data. Nem seriam ultrajantes os seus pensamentos em Luiz Gustavo, ainda que o noivo se chamasse Carlos Henrique.
Tão traído quanto Mendelssohn que, desavisado, emprestava sem direitos autorais a sua marcha nupcial, Henriquinho, como queriam os parentes, fora tomado de alegre surpresa quando a noiva, um mês antes, lhe informou da gravidez. Chorou do amor presente, e lhe jurou paixão eterna. A gráfica rápida se encarregou dos convites, o tráfico de influência cristã da tia carola assegurou o padre, o brechó entrou com o vestido.
O certo improviso não teria sido obstáculo nem causado transtorno ao êxito da cerimônia. Especialmente se Mara Magali tivesse dito “sim”.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Há entornos naquela vila

Há entornos naquela vila onde gente de bem se recusa a passar. São áreas de alto relevo geográfico, mas de baixa relevância social, como os morros cariocas, se bem me entendem. Nem Eurípedes, meu motorista, gosta de transitar por lá. Infelizmente Mãe Jandira reside naquela coisa, e se recusa a atender em domicílio aqui na zona sul, a burra. Nunca ouvi falar que entidades só baixassem num endereço certo, mas ela diz que são as guinés, arrudas e alecrins do seu quintal. Os espíritos vêm pelo cheiro. Eu bem que poderia mandar fazer uma horta com essas coisas, hidropônica, porque não tenho e odeio terra, na varanda do apartamento, só para trazer a Mãe Jandira e não me submeter aquele lugareiro.
Depois falam mal quando a gente perde a boa fé. É o que dá mexer com gentinha...