quarta-feira, 10 de junho de 2009

Justo ele

Justo ele, touro reprodutor, foi se esquecer da função. Não era boi. Boi é bicho castrado, que vai para céu. Marido da vaca, destinado ao abate, puxador de carros e outros deméritos que o homem lhe impõe. Touro, contrário às coisas, tem carne esquisita, dura. Não serve para servir.
O coitado tinha número ao invés de nome. Nome mesmo, só quem lhe dava é Sebastião, o tratador, para o dono era PO-423, e nem se importava que lhe tivessem nomeado, em fazenda alheia, o pai e a mãe: Enlevo da Mangabeira e Bruma de Avalon. Lá ele era mesmo o PO-423, fruto de melhoramento genético.
Frustrado, o dono, fazendeiro rico, viu fracassar seu intento cafetão. O PO-423, nada. Dizem que depois disso o abandonou num pasto, junto às vacas e aos bois sem raça... Sebastião só ri. “Poderoso do Tião” anda famoso. “Fez pra mais de cem bezerros pobrinhos”...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Chamava de balangadeira

Chamava de balangadeira a sólida cadeira de madeira maciça vergada, de permanência hereditária no fundo da varanda. Fora do trisavô, passada ao bisa, antes de confortar o avô, que a presenteou ao pai. Feita para ver vistas, pelos olhos passados mostrou paisagens bucólicas, no sítio da família. Pelo olhar presente, erguida ao sexto andar, dava para um triste edifício e suas janelas medíocres.
Pena que os olhos da ocupante Wanderléia não viam mais nada. Estirada como estava para a fotografia do perito, jazia sem ritmo para frente ou para trás. Sem a tonteira dos balançares embriagados ou o cochilo saudável do pós-almoço. Ao investigador mal educado que perguntou duro onde ele havia colocado a vítima, o traído aflito apontou a herança passional: - ali, na balangadeira...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Fiéis ao pecado

Fiéis ao pecado como de fato eram, os dois irmãos belos de cara, mas horríveis de princípios, receberam no curso de Letras o apelido de flores do mal. Feito lâminas sonoras, falavam aos cortes, palavras que fendiam almas e ofendiam qualidades.
Gêmeos no tédio e no ideal, deram para ler Baudelaire a qualquer flâneur incauto. Até a passagem do furacão Homero, e a cólera de Aquiles. Aluno da engenharia, o primeiro era dado a aventuras, ilíadas e cachaçadas. Aquiles, seu camarada da química, mal caía no sono já levantava para o chope.
Currículos tão distintos não poderiam terminar em poesia. Aquiles foi direto no tendão: “meu negócio é Apollinaire”. Os flores do mal se entreolharam. Um tempo curtíssimo, para uma gargalhada homérica.

domingo, 7 de junho de 2009

Versão sem remix

Versão sem remix de um rap rasteiro, de sua boca só saia cacetes e porras, além de eventuais filhas-das-putas. Gritava a toa, por razões que não tinha, feito adolescente histérica quando vê seu paquera do outro lado da rua. Deu para promover o tráfico, essencial para o consumo, entre as amigas chiques do condomínio fechado. Cheiros e sabores para o êxtase das mal amadas senhoras. Dos bons e à vista.
Só não contou com a raiva gratuita de Carmen Letícia de Abreu e Brás. Então fez o que fez. Pediu ao avião uma triplicação do psicoativo ecstasy, e deu quatro comprimidos à Carminha: branco, azul, amarelo e laranja. Disse à pobre rica que agora “era assim” que se tomava. A moribunda ainda implorou água, mas ela pediu uma pizza, de carne-de-sol com mussarela.

sábado, 6 de junho de 2009

Fez tanta sala

Fez tanta sala para a vida, que acabou perdendo a pose. Sem varanda e sem cozinha, sentia-se marcada por Deus com o sinal das grandes predestinadas, enquanto descia flagelada às grutas da vileza humana. Meio madame, meio Almodóvar em preto e branco, se casou com o dono da enorme escola particular, para retomar glórias e shoppings.
A ação sempre afasta o mau sentimento, e se sentiu bem, chacoalhando as cadeiras nas camas e mesas dos ricos do lugar. Pilotou banquetes, saboreou empregados, pariu herdeiros. Sorridente e desbocada: - A vida é um lingerie vermelho.
No afã de uma nova jóia, ajoelhou-se ao colo do marido ordinário e esperou o tapa: - Já te dei um carro essa semana...